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A Raça e o Gênero nas Novelas dos Últimos 20 Anos

A Raça e o Gênero nas Novelas dos Últimos 20 Anos

 

Luiz Augusto Campos, Marcia Rangel Candido e João Feres Jr.

As novelas brasileiras produzidas pela maior emissora de televisão do país, a Rede Globo, são parte do cotidiano nacional. Como tal, elas exercem enorme influência na construção das percepções das pessoas sobre o mundo social e o lugar que elas ocupam dentro dele. Isso se torna ainda mais central quando temos em mente que as novelas televisivas da Globo sempre buscaram difundir imagens arquetípicas do brasileiro, do Brasil e das classes, regiões e espaços culturais que compõem o país.
A despeito da tentativa da Globo representar o “nacional”, o infográfico “A raça e o gênero das novelas nos últimos 20 anos”, agora publicado pelo GEMAA, mostra que os personagens centrais da teledramaturgia possuem um perfil bem restrito. Ao todo, analisamos 101 novelas, levadas ao ar nas últimas duas décadas (1995-2014). Foram computados todos os personagens que aparecem nas tramas principais de cada novela. Usamos como fonte de dados o site “Memória Globo”, portal mantido pela própria emissora que contém uma enciclopédia virtual de sua teledramaturgia. Todos os atores e atrizes incluídos no recorte tiveram suas fotos heteroclassificadas pela equipe do GEMAA.
Em média, as novelas globais possuem 90% de personagens representados por atores/atrizes brancos e apenas 10% por pretos ou pardos. Tal cenário não condiz com a realidade da diversidade nacional já que, segundo dados do IBGE, a população de pretos e pardos excede a de brancos. Vale notar também que tal percentual variou muito pouco nos últimos vinte anos, a despeito de esforços localizados para produzir novelas com maior participação negra. As novelas que mais apresentam personagens centrais não-brancos não excedem 31% do total. Ademais, em oito novelas estudadas, todos os personagens centrais foram classificados como brancos.
Outro dado importante da pesquisa se refere aos cruzamentos entre as variáveis gênero e raça. Há de fato uma predominância de personagens mulheres (49,3% em média) nas novelas. Porém, novamente há uma sobrerrepresentação das atrizes brancas, já que a média de atrizes pretas ou pardas não passa de 4,6% contra 44,7% de atrizes brancas. O mesmo ocorre com os homens: enquanto os personagens brancos do gênero masculino representam 45,3%, os homens pretos e pardos são apenas 5,4% do total.
Tais dados se tornam mais desiguais quando focamos apenas os protagonistas. Do total, 52% das novelas foram protagonizadas por atrizes brancas e 43% por homens brancos. Apenas 4% foram protagonizadas por mulheres não-brancas e 1% por homens não-brancos. Note-se que as 7 protagonistas não-brancas foram representadas por apenas três atrizes: Thaís Araújo, Camila Pitanga e Juliana Paes. Não houve no período uma novela sequer com um protagonista masculino preto.