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A Cara do Cinema Nacional

O Brasil das telas de cinema é um país branco

 

Verônica Toste e Marcia Rangel Candido

O Brasil por muito tempo ostentou a reputação de ser um “paraíso racial”, uma terra de integração, mestiçagem e exemplo para outras nações multirraciais. Conhecido internacionalmente pelo seu futebol e carnaval, o país irradia através de grandes eventos e festividades nacionais a imagem de uma nação que valoriza sua população negra e mestiça. No entanto, essa imagem convive com formas internas de segregação que fazem com que a maior parte dos espaços de status e prestígio sejam reservados aos brancos. A moda, a publicidade, a televisão brasileiras, por exemplo, valorizam a estética branca e excluem os negros. O mercado de trabalho é permeado de racismo, o que produz uma exclusão severa dos pretos e pardos das ocupações de melhor remuneração.
No cinema não é diferente. A pesquisa “A cara do cinema nacional: perfil de gênero e cor dos atores, diretores e roteiristas dos filmes brasileiros (2002-2012)” mostra que o Brasil das telas do cinema é um país predominantemente branco.
Apesar de serem mais de metade da população (50,7%), os pretos e pardos representaram apenas 20% dos atores e atrizes que atuaram em papéis de destaque nos filmes brasileiros de maior bilheteria entre 2002 e 2012. O viés de gênero no cinema do país também é forte: mulheres têm baixa participação nas funções de direção e roteirização dos filmes comerciais. Apesar de ser lugar-comum no país a celebração da mulher “mestiça” (ou “mulata”) como ícone de beleza e sensualidade, no cinema ela não tem vez: apenas 4% do elenco principal desses filmes foi composto por mulheres pretas e pardas. Assim, a mulher negra sofre de sub-representação extrema, pois é objeto da combinação de duas discriminações, de gênero e raça.
O presente infográfico apresenta os principais dados obtidos pela pesquisa, realizada pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA), do IESP-UERJ). A baixa participação de mulheres e negros nas funções de atuação, direção e roteirização evidencia que o cinema brasileiro é dominado pelo gênero masculino de cor branca. Isso tem consequências importantes: (1) faz com que o cinema seja mais uma instância de difusão da visão de mundo desse grupo hegemônico, que estereotipa e representa os demais sob lentes negativas; (2) exclui as perspectivas e vivências alternativas das minorias; (3) promove a internalização de valores de um pequeno grupo dominante pela audiência; (4) impede que as minorias desenvolvam uma auto-imagem positiva a partir de exemplos (role-models).